Da série Crônicas de um Redator Nerd

Parte 1: O Medo de Ser Incapaz

Quem me conhece pessoalmente sabe que existem duas características curiosas sobre mim que fazem com que minha escolha de carreira pareça um paradoxo:

  1. Eu sou bastante socialmente fechado para o padrão brasileiro, que tende a ser extrovertido;
  2. Eu me sinto altamente desconfortável com ambientes e pessoas novas, especialmente se precisar ficar sozinho ao invés de andar com um grupo de amigos.

Estas duas características, então, fazem com que minha decisão, em abril deste ano, de participar da organização do Sh*ft Digital (a edição online de 2021 do Sh*ft Festival, evento sobre inovação e cultura organizado por um grupo primariamente situado em Joinville-SC) tenha soado um tanto insana.

E a verdade é que eu mesmo estava com dúvidas sobre a minha presença em uma equipe dessas. Na minha mente, eu era o “novato”. O cara que não conseguiria fazer muita coisa, que estava completamente por fora da cultura do time e que não ia conseguir fazer muito.

Como alguém que sofre de Depressão e Síndrome de Ansiedade, era (e continua sendo) difícil distinguir se essas autocríticas faziam sentido ou se era minha mente ansiosa me dizendo que eu valho menos do que a realidade.

E, honestamente, mesmo depois desses meses e depois de ver o resultado dos esforços da equipe do Sh*ft Collab, parte da minha mente ainda me cutuca. Aquela voz chata de sempre está lá, tentando me dizer que o trabalho não foi meu, foi só dos outros.

“O que eu fui pensar ao entrar em um negócio desses?”, minha mente parece dizer para mim mesmo.

Parte 2: O Medo de Tentar

Eu não sei quando eu comecei a desenvolver Depressão. Muito menos Síndrome de Ansiedade – que, no meu caso, é ainda mais constante e insidiosa que a Depressão.

O diagnóstico veio tarde (por volta dos 25 anos), por culpa minha ao tentar impedir que minha mãe se preocupasse demais com algo que, ao meu ver, eu mesmo devia resolver sozinho (eu estava errado).

Após o diagnóstico, vieram as memórias. Os pontos em que eu podia perceber a Ansiedade falando no meu ombro. Ou lembretes de momentos em que meu corpo reagiu com muito mais adrenalina que o normal.

Depois começou a luta. Tentar diferenciar meus pensamentos sinceros da opinião do pequeno demônio que vive no fundo da minha mente dizendo que não vale à pena.

Uma coisa continuou, porém, mesmo depois do diagnóstico: o medo. Medo de parecer um idiota ao demonstrar alegria em público. Medo de parecer ridículo ao demonstrar emoções mais profundas. Medo de ser julgado como inútil ao começar trabalhos novos.

As reações físicas pelo excesso de adrenalina no corpo, é claro, também não ajudam. Pernas tremem mesmo quando a mente está calma. Mãos tremem com facilidade. O tremor traz o medo de parecer despreparado, aumentando ainda mais o tremor.

Entrevistas de emprego? Tremor e medo. Dinâmicas em grupo? Tremor e medo.

A vida? Tremor.

Tremor e medo.

Parte 3: O Medo de Ser

Como resultado do medo, me fechei. Não sei quando – o processo começou em algum ponto na adolescência – mas eventualmente me fechei.

Se tornou difícil confiar nas pessoas e formar amizades. Se tornou difícil me abrir emocionalmente. Se tornou difícil demonstrar um pingo de emoção mesmo em conversas casuais.

Tive medo de ser quem sou. De compartilhar minhas opiniões com pessoas novas. De entrar para grupos novos. Passei a usar o “mas” como muleta para a vida.

Minha incerteza sobre mim mesmo e meu medo de ser julgado e mal-entendido me influenciaram a falar demais e explicar sem parar com medo de não ser entendido e de ser julgado.

“Não sou especialista no assunto, mas essa é a minha opinião…” virou catchphrase. Ao defender algum grupo da sociedade, sempre começava com “Não sou X, mas…”. Ao falar sobre algum tema em que não tinha experiência, sempre começava com “Não tenho certeza porque nunca trabalhei com isso, mas…”.

A palavra cresceu. O significado virou meu lema.

Demonstrar afeto por alguém? Mas e se me virem e me julgarem como fraco?

Entrar para um grupo cheio de estranhos? Mas e se eu continuar sendo o outcast mesmo ali dentro?

Fazer trabalho voluntário? Mas e se o meu trabalho for ruim e ficar com reputação por ter sido removido de um voluntariado?

Me fechei mais. Video games, comunidades anônimas online (não o 4chan, felizmente) e a possibilidade de fugir viraram meus companheiros diários.

Eu e a fuga, andando de mãos dadas enquanto o mundo caía.

Parte 4: A Luz da Esperança

2020 não foi um ano fácil. Sem emprego desde 2018, com sentimento de falta de propósito desde 2014 e sem objetivos concretos, quase me perdi na depressão.

No fim fiz uma escolha. Escolhi investir em minhas habilidades como redator. Mas meses e mais meses passaram sem grandes resultados, então mergulhei no mundo da literatura. Passei a escrever ficção. Meus medos viraram os medos de personagens nas histórias.

Ao mesmo tempo em que isso aconteceu, algo em mim me disse para participar de voluntariado. Algo mandou o pequeno demônio da Ansiedade ficar quieto. Então virei voluntário, ajudando com mídias sociais no Revisores do Bem.

Recebi revisão de currículo e de perfil do LinkedIn de graça. Sugestões de cursos, opiniões sobre carreira, apoio moral.

Ainda não sabia lidar com elogios. Não sei até hoje, na verdade. Também ainda estava muito fechado.

Eu interagia com o grupo, sim. Fazia minhas piadas sarcásticas de sempre. Mas eu ainda tinha medo de ser.

Mas e se a carreira de redator der errado? Mas e se não rolar de virar escritor de ficção? Mas o que acontece se terminar 2020 e eu ainda não tiver esperanças?

Mas e se minha mãe morrer e eu ficar sem apoio financeiro e emocional?

A mente foi um caos. A saúde afundou. Mas, pouco antes de dizer adeus a 2020, coisas mudaram. Meu primeiro trabalho como freelancer, meu primeiro emprego formal na área de Marketing.

Em 2021, a voz continuou guiando. Me falando para tentar. Me falando para entrar em contato.

Em março, alguém compartilhou algo sobre o Sh*ft Collab no LinkedIn. A voz me disse para clicar. Eu cliquei.

Parte 5: A Alegria de Ser

É clichê dizer que um evento mudou a vida. É clichê e geralmente é mentira, aliás. Eventos raramente mudam a vida de pessoas – eles mudam o pensamento por uns 7 dias, 15 no máximo, e daí as coisas voltam ao normal.

Mas o Sh*ft mudou minha vida.

Ao entrar na comunidade, eu vi gente que pensava como eu. A grande maioria era (e ainda é) muito mais extrovertida, e eu não tinha como esperar diferente. Mas eu me via neles. Eu me vejo neles. Pequenas partes de mim também estão em cada um dos membros.

Me senti com medo de novo. Todos com pensamentos e talvez até medos semelhantes aos meus, mas todos com carreiras e vidas que pareciam ter maior sucesso que eu.

Será que eu estava no lugar certo? Será que eu conseguiria fazer um bom trabalho? Será que eu-

Dengue. Um mês sem conseguir trabalhar direito. Febre de 40°, fraqueza no corpo por semanas a fio, tudo isso no meio da organização da primeira edição digital do Sh*ft.

Eu fiz promessas. Eu disse que iria ajudar. Que faria parte e me envolveria no processo.

Perdi uma reunião. Duas. Quatro. Mais, cheguei a perder a conta. A ansiedade voltou. O medo de repercussão pela ausência. Retorno ao grupo temeroso, me explicando mais do que devia, tentando corrigir demais a minha ausência ao me voluntariar até para coisas que já tinham sido resolvidas. Medo da resposta.

E… nada. Calmaria. Respostas positivas, pessoas sinceramente preocupadas. Não porque eu tinha sido vital para algo e minha falta trouxe caos, a organização ainda estava no começo. Mas porque era eu. Porque eu existia. Porque eu devia existir.

Eu não era o novato. Eu não era o inútil. Eu não era o outcast.

Eu era.

Eu sou.

Isso bastava.

Parte 6: A Alegria de Tentar

O evento veio e foi. Me revigorou. Me animou.

Conheci gente que já respeitava há anos mas nunca tive oportunidade de conversar. Entrei em conversas que nunca esperava entrar. Contei e ouvi piadas que outrora me deixariam envergonhado, com medo.

Conversei com novos usuários mesmo com a câmera ligada, me deixando vulnerável para o mundo. Conversei com ídolos mesmo com a câmera ligada, deixando eles me verem por quem eu sou.

Não me escondi por trás de um blazer ou de um cenário altamente organizado. Era eu e o mundo. Minhas imperfeições encontraram as imperfeições dos outros.

E ninguém deu bola.

Aprendi muito em um dia. Sobre os temas dos painéis e entrevistas, sim, mas mais que isso. Aprendi que gostava daquilo. Aprendi que eu tenho um lugar onde faço parte. Aprendi que não preciso me esconder nos games e comunidades internacionais o tempo todo. Aprendi que posso ser quem eu quero ser e que eu posso tentar coisas novas por aqui mesmo.

E aprendi que eu queria mais.

Eu detesto aglomerações, mas eu queria só mais uma. Eu detesto videochamadas, mas eu queria passar o resto do fim de semana conversando no Gather Town. Eu detesto parecer sem noção, mas eu queria fazer mais das minhas piadas sem graça.

Eu queria mais. Eu quero mais. Mais disso tudo. Dessa cultura inclusiva, desse pessoal aberto e receptivo, dessas ideias novas. Desse ambiente onde não sou julgado por tentar algo novo e não conseguir entregar a tempo.

Eu quero fazer mais. Ajudar mais. Participar mais.

Estou feliz com minhas contribuições? Sim e não. Acho que fiz coisas boas, mas também acho que podia ter feito mais. Queria ter feito mais. O pequeno demônio na minha mente insiste em falar para eu não tentar, para eu deixar de lado, que eu sou inferior.

Mas a voz do Sh*ft se torna cada vez mais alta. A voz do Sh*ft diz que eu posso tentar. A voz do Sh*ft diz que qualquer ajuda é bem-vinda. A voz do Sh*ft diz que eu sou e isto já é o bastante para não se preocupar.

Parte 7: A Alegria de Ser Capaz

No fim, o evento digital me mostrou que eu posso, sim participar de eventos presenciais. O Sh*ft, com sua estrutura nova e grande, me mostrou o que acontece nesses eventos. Me mostrou como é trabalhar e participar de um deles.

Me mostrou que sou capaz. Que eu posso fazer isso.

O Sh*ft também me apresentou a várias pessoas diferentes. Executivos, programadores, redatores, designers. Me fez falar com gente de fora do meu mundo. Me fez tentar interagir com pessoas que nunca tinha visto na vida e que nunca me conheceram.

Me mostrou que eu consigo. Que eu posso quebrar minhas barreiras mentais e mergulhar em algo novo.

O Sh*ft me ensinou muita coisa. Sobre organização de eventos, sobre redação, sobre marketing digital, sobre divulgação de eventos, sobre trabalho colaborativo. Quando o evento foi ao ar, ele me ensinou sobre jornalismo, sobre comunidades, sobre podcasts, sobre desenvolvimento de jogos.

Mas, acima de tudo, ele me ensinou sobre eu mesmo. Sobre quem eu posso ser. Sobre quem eu quero ser.

O grupo do Sh*ft, mais do que qualquer indivíduo que eu tenha conhecido na minha vida, me ensinou que eu não sou a ansiedade.

O Sh*ft me ensinou que eu não sou o medo.

O Sh*ft me ensinou que eu sou eu.

Texto originalmente publicado (com agradecimentos) no LinkedIn

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