Arte de capa do jogo Assassin's Creed Valhalla
Arte de capa de Assassin’s Creed: Valhalla
Imagem: Reprodução / Ubisoft

Eu sou fanático por História, por aprender sobre culturas antigas e por entender melhor religiões e mitologias antigas, o que não é surpresa para ninguém que me conhece. O problema é que, destes quatro pontos, Valhalla só alcançou sucesso em um deles. Bom, mais ou menos.

Esta parece ser uma crítica estranha para um jogo de ação, aventura e (teoricamente) furtividade, então vamos dar um passo para trás e explicar a situação.

Assassin’s Creed é uma franquia da empresa Ubisoft. Seu primeiro título foi lançado em 2007 e, desde então, a franquia tem continuado com títulos praticamente anuais. Em geral, a série foca em três princípios: ataques furtivos (afinal, “assassino” é parte do título), exploração e o que muitos chamam de “turismo histórico”.

E, diga-se de passagem, este turismo histórico é exatamente o que atrai um nerd como eu à franquia. A oportunidade de interagir com recriações de locais e momentos no passado (ou, em jogos recentes, recriações de locais míticos, como Valhalla) é imperdível. Elementos como estes (além de um certo ar de mistério sobre aspectos da história que se passa no presente) são os responsáveis pela franquia ter se tornado líder de vendas para a empresa. Valores exatos são difíceis de encontrar, mas uma estimativa trazida pelo portal Deadline sugere um total de 155 milhões de jogos vendidos até outubro de 2020.

A cada jogo, então, o orçamento cresce e o destaque dado à fidelidade histórica aumenta exponencialmente.

Exceto quando chegou a vez de desenvolver Assassin’s Creed: Valhalla, aparentemente. Mas, a fim de não forçar a barra, vamos explorar primeiro os pontos positivos – afinal, eles existem.

“Por Valhalla!” – Combate e Incursões

Uma das grandes promessas – talvez até a principal – por trás do jogo é a de que “você se sentiria como um verdadeiro viking”. Entre ainda mais melhorias no combate (em comparação com títulos anteriores) e a adição das incursões, certamente nota-se o esforço dedicado.

Após Assassin’s Creed Origins revitalizar o combate da série e sua sequência, Odyssey, testar elementos mais fortes de RPGs, Valhalla traz uma versão mais contida e (até certo ponto) realista da fórmula. Apesar de as comparações desta nova trilogia aos jogos Dark Souls serem exageradas, elas são parcialmente justificadas desta vez. Tanto em Dark Souls quanto em Valhalla, há um certo foco em movimentação e timing. Foco, este, que infelizmente acaba perdendo importância conforme o jogador conclui a história e desbloqueia habilidades e bônus que tornam os combates muito mais fáceis.

Mas aí entram as incursões.

Imagem de uma incursão em ação dentro de Assassin's Creed: Valhalla
Imagem: Reprodução / Ubisoft

Let’s go a-viking!” – Por dentro das incursões e do pós-jogo

Alguns problemas comuns permeiam a franquia Assassin’s Creed desde o seu início, há mais de uma década. Valhalla tentou solucionar pelo menos dois deles: a falta de impacto no combate e a falta de atividades interessantes para realizar no chamado pós-jogo (quando o jogador já concluiu a história, mas quer encontrar novas coisas para fazer dentro do jogo). As incursões (“Raids” no original, em inglês) ajudam bastante com isto, especialmente após o update River Raids” em 2021.

Este modo de jogo traz Eivor (a protagonista do jogo e personagem jogável) para locais onde há riquezas a serem pilhadas e coletadas. Acompanhando-a, o jogador conta com um barco viking repleto de personagens não controláveis que dão suporte na batalha. Mas, a fim de balancear a presença destes aliados, os combates se tornam mais difíceis. E, particularmente nas incursões da atualização “River Raids“, as habilidades destes vikings são notavelmente fracas, mas o jogador depende da presença deles para obter sucesso nas incursões.

O ponto negativo, porém, é que as incursões efetivamente negam o aspecto de furtividade da franquia. Momentos em que, nos jogos que precedem, era possível invadir uma fortaleza totalmente sozinho, se esgueirando lentamente, são inúteis em Valhalla. Afinal, estes encontros (que não são criados especificamente para incursões) se tornam muito mais fáceis se o jogador chamar seu time de vikings ao invés de tentar se esconder – e o ganho permanece o mesmo.

Outro aspecto menos favorável é que, para utilizar o modo River Raids, o jogador precisa de bastante dinheiro. Algo que, após concluir a história, se torna muito difícil de obter. Em parte, é possível entender o ponto de vista dos desenvolvedores, que não gostariam que o jogador fique preso a uma única atividade. Mas é difícil evitar o fato de que, após certo tempo, o processo de coleta se torna entediante.

A decepção da (falta de) furtividade

Parte das atividades interessantes da série sempre esteve ligada à furtividade. Tentar alcançar algum alvo sem ser visto dentro de uma enorme fortaleza ou palácio é um objetivo que fez parte de todos os jogos da franquia.

É claro que nem sempre a preocupação em furtividade foi o principal aspecto motivador. Muitas vezes a ideia de se esgueirar era tão “ignorável” que apenas jogadores interessados em um maior desafio optavam por estas técnicas. Mas, mesmo assim, elas sempre foram um aspecto viável e funcional.

Mas, infelizmente, é difícil dizer o mesmo de Valhalla. A combinação de uma menor habilidade em prever a posição e movimento de guardas com bugs onde inimigos conseguem ver o jogador através de obstáculos ou ao olhar para outro lugar faz com que a experiência se torne extremamente frustrante – algo que só piora quando você está sempre a um botão de chamar seu time de vikings para reforçar suas ações.

Pelo menos o combate, quando você é inevitavelmente avistado pelos guardas, é divertido…

Imagem: Reprodução / Ubisoft

“Tudo é permitido.” – História e exploração

Outro ponto forte de Valhalla (que infelizmente também tem seu lado negativo) é a exploração.

Explorar as ilhas britânicas e a região ao redor de Paris (para jogadores com os DLCs) é extremamente interessante. As vistas são ótimas, as florestas são incríveis e os ambientes são muito variados. Como resultado, a experiência de simplesmente andar (a pé ou a cavalo) nunca deixa de entreter. Seja para visitar o Stonehenge (é claro que ele existe no jogo) ou para retornar ao seu vilarejo de Ravensthorpe pela milésima vez, sempre há algo no ambiente que o torna mais atrativo.

Infelizmente, porém, estes pontos positivos são reduzidos nas áreas dentro da Noruega e Vinlândia. Estas áreas, apesar de igualmente bonitas, apresentam muitos obstáculos que atrapalham a exploração. E, no caso da Noruega, a neve constante torna as vistas extremamente repetitivas – mas pelo menos temos a aurora boreal como companhia.

Mas, ao falar da representação da Noruega, é impossível fugir dos erros históricos do jogo.

“Nada é real.” – O jogo dando um tiro histórico no próprio pé

O primeiro grande erro que todo jogador inevitavelmente notará é simples: a presença das icônicas igrejas de madeira escandinavas. Isto é um problema por um simples fator: a história se passa antes da cristianização da Noruega.

Ademais, o problema só piora quando o jogador visita Asgard (afinal, é claro que Asgard faria parte do jogo). O problema? Um pequeno detalhezinho: Valhalla, lar de Odin, também segue a estética das igrejas escandinavas. A ideia do lar dos deuses pagãos do Norte ter a aparência de um templo dedicado a Jesus Cristo é, no mínimo, questionável.

Outros pequenos detalhes que incomodam são a caracterização de certos personagens míticos (não, os “gigantes de gelo” de Jotunheim provavelmente não eram vistos como homens enormes de pele azul pelos vikings na vida real), a falta de certos personagens históricos importantes nos DLCs devido a eles fazerem parte da história base do jogo, etc.

Como um todo, não são detalhes que arruínam a experiência totalmente. Mas certamente deixam a desejar, considerando o quão fiel à história real a franquia tende a ser.

Valhalla: Bom ou ruim?

Este é, possivelmente, o jogo mais difícil de avaliar desde Assassin’s Creed: Syndicate.

Por um lado, não pude encontrar nenhum problema de performance (ou pelo menos nenhum que não pudesse ser resumido a “meu computador está velho demais”), os gráficos são ótimos e Eivor tem uma personalidade contagiante. Já do lado oposto, os erros históricos são difíceis de ignorar e o jogador passa muito tempo na Noruega, área em que a exploração é particularmente incômoda.

Adicionalmente, a história que o jogo conta inclui vários elementos de fanservice. Diversos aspectos de jogos passados retornam em Valhalla, especialmente no final. Para alguns, é sinal de que Ubisoft está conectando mais os jogos e expandindo ideias antigas. Para outros, pode parecer uma tentativa desesperada de reaver a atenção de fãs antigos. Tendo tudo isto em mente…

Conclusão:

Assassin's Creed Valhalla: Apesar de conter diversos elementos frustrantes, Valhalla ainda traz muitas coisas positivas que, de uma forma ou de outra, me forçam a reinstalar o jogo de tempos em tempos para conferir novidades e tentar concluir atividades deixadas para trás. Mas, em nome de Odin, este podia ser um jogo ainda melhor. Muito melhor. ediesch

7.5
von 10
2021-12-19T16:40:34-0300
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